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Diretos da Revolução

Projeção de filmes que permite imergir no ambiente vivenciado em plena Revolução de Abril

20 jul 2024 Data seguinte: 22 jul 2024
10:00 - 18:00
Entrada livre

Nos Diretos da Revolução, haverá a oportunidade para ver os filmes 'Portugal, La Délivrance' e 'Milagro en la Tierra Morena' gravados durante aqueles dias de abril de 1974 pelo jornalista belga Josy Dubié, epelo cineasta cubano Santiago Álvarez, respetivamente. Esta projeção permitirá aos visitantes imergir no ambiente vivenciado em plena Revolução de Abril.


'Portugal, La Délivrance'

“Eu estive lá. Eu estive no Largo do Carmo”, diz Rui Táboas, carinhosamente conhecido como o soldado de Melgaço que há 50 anos foi entrevistado pelo jornalista Josy Dubié para a estação de televisão belga RTBF. Rui Táboas (n. 1951) que fugiu à guerra colonial exilando-se em França, quis a ironia que acabasse como um dos protagonistas do 25 de Abril de 1974 no documentário Portugal, La Délivrance, já que era dos poucos que dominava a língua francesa.

Assim que soaram as primeiras notícias da revolta militar que pôs fim a 48 anos de ditadura fascista em Portugal, Josy Dubié e equipa voaram para Lisboa a fim de verem ao vivo e a cores uma revolução nada habitual em países europeus.

Josy Dubié nasceu em Bruxelas em 1940. Durante a década de 1970 ingressa na RTBF- Radiotélévision belge de la communauté française, onde se manteve fiel até 1994 quando se reforma. Além de jornalista, abraça também a realização no cinema e inevitavelmente a política, uma voz da esquerda; as grandes reportagens internacionais eram o seu alvo como repórter, destacando-se a última entrevista conhecida com o presidente chileno Salvador Allende em agosto de 1973, fazendo-se passar pelo representante do partido socialista belga; ou a reportagem em abril de 1975 em Saigão onde filmou os últimos dias do regime sul-vietnamita. Não surpreende pois, que o enfant térrible da televisão belga se apressasse a chegar a Lisboa logo às primeiras horas do dia 25 para assistir à ruptura com as políticas repressoras do Estado Novo, à queda da censura e das perseguições políticas, à libertação dos presos políticos, ao início da liberdade de expressão. Josy Dubié e a sua equipa filmam a primeira semana do povo português livre e em festa, uma semana que termina em júbilo popular com as manifestações do 1º de Maio, feriado nacional pela 1ª vez em muito tempo. Dois dias depois Portugal, La Délivrance é transmitido no programa de televisão Neuf Million Neuf da RTBF, e o mundo inteiro viu os cravos vermelhos a pontuarem de cor a paisagem desses dias, tornando-se para sempre o nosso símbolo da Liberdade.

Portugal, La Délivrance, de Josy Dubié para a RTBF, 1974, (36')
[RTBF/programa 9000009 (03/01/1974), cor, som, formato original 16mm]
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/009/000812

 
'Milagro en la Tierra Morena'

«Não vim por coincidência a Portugal filmar a Revolução do 25 de Abril. Estava em Espanha, onde se vivia uma realidade parecida com a portuguesa; em ambos os países lutava-se pela sobrevivência e contra a ditadura, e deslocar-me a Portugal não foi coincidência. Gosto de viver a História.»
Santiago Álvarez

Santiago Álvarez (1919-1998) foi um cineasta cubano, diretor dos Noticieros ICAIC- Instituto Cubano da Arte e da Indústria Cinematográficas, o cinejornal oficial da ilha caribenha pós-revolução cubana, concebido como uma ferramenta de difusão de ideais revolucionários. Sob a direção de Alfredo Guevara, mestres como Joris Ivens, Jean-Luc Godard e outros, formaram aqui jovens documentaristas; liderados por Santiago Álvarez, filmaram não só Cuba, mas também os principais acontecimentos da segunda metade do século XX em todo o mundo, em particular os de carácter revolucionário, como as guerras de independência em África ou as guerrilhas da América Latina e, claro, a Revolução dos Cravos em Portugal em Milagro en La Tierra Morena.  Alvarez contava à revista Cinéfilo que “como cineastas e repórteres que somos, estamos a tentar recolher os fatos mais humanos aqui em Lisboa. Eu, por exemplo, estive na tomada de posse do general Spínola em Queluz, e a cerimónia impressionou-me muito, sobretudo pelo povo que esperava cá fora e que tinha uma esperança tão grande como o povo cubano nos momentos capitais da nossa vida. Não pude, porém, deixar de pensar nos vossos 48 anos de fascismo: devem ter sido anos de muita tristeza e angústia, de muitas privações, porque todos os povos que suportam um regime fascista ou de estrutura parecida têm de sofrer muito, como é o caso do povo chileno. E a associação é imediata: como é que um golpe militar pode ter aqui um sentido libertador? A explicação, para mim, que estou aqui há poucos dias e pouco sei de vós, é que estes jovens capitães e oficiais compreenderam qual era a situação real do vosso país, ultrapassando os sentimentos egoístas, classistas ou profissionais – como nos quiseram fazer crer...”

Apesar da sua importância histórica, pelo olhar de um dos mais importantes cineastas, Milagro en La Tierra Morenaé um filme por vezes injustamente esquecido no panorama dos filmes da nossa Revolução.Geografias diferentes, mas a luta é a mesma.

NOTA: Cópia gentilmente cedida pelo ICAIC- Instituto Cubano da Arte e da Indústria Cinematográficas, com a cortesia das embaixadas de Portugal em Havana e de Cuba em Lisboa.

Milagro en la Tierra Morena, de Santiago Álvarez, 1974-1975 (21’)
[noticiário latino-americano ICAIC nº 663 (27/06/1974), pb, som, formato original 35mm]
Código de referência: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/009/000815