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Detalhe

Gérard Castello-Lopes e o degrau suplementar

Uma homenagem

David. Paris, 1983. Gérard Castello-Lopes. (Direitos reservados. Reprodução mediante autorização do proprietário da imagem)

registo no catálogo

"Sempre pensei que a fotografia é uma escadaria de escolhas: o que se fotografa, o enquadramento, a luz adequada, a profundidade de campo, a sorte, a revelação, a ampliação e, finalmente, a decisão de mostrar, publicar, difundir, a imagem acabada ou de a recusar por insuficiência técnica ou estética."1

Gérard Castello-Lopes

No centenário do nascimento de Gérard Castello-Lopes (1925-2011), é justa a homenagem a um dos nomes maiores da fotografia portuguesa da segunda metade do século XX2. Elegemos, deste modo, como mote para o presente artigo, a fotografia Paris, 19833 — uma imagem em plano picado na qual uma criança distante é enquadrada entre as linhas de um edifício e as de uns degraus de uma escada, resultando numa composição geométrica. A criança é David, filho do fotógrafo.

A fotografia é uma das trinta que compuseram a exposição homónima organizada pelo Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, em 2001, com a curadoria de Luísa Costa Dias. Com esta mostra, quis o autor fazer uma narrativa visual da vida do filho, desde os primeiros passos ao fim da adolescência; simultaneamente, enquanto símbolo de nostalgia e saudade, a exposição constituiu, para o seu autor, uma forma de despedida da criança e do adolescente que o seu filho foi.4

Gérard Castello-Lopes iniciou-se na fotografia em 1955, fascinado com as paisagens submarinas que o seu interesse pelo mergulho o levou a contemplar. Entre 1956 e 19665, munido de uma máquina Leica, inventariou a preto e branco o povo e a realidade portuguesa do tempo da ditadura salazarista, numa perspetiva testemunhal e humanista, marcada pela obra e técnica do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004).

Em 1961, publicou no Photography Yearbook e, em 1970, expôs no Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Osaka, a convite de Daciano da Costa. Alguma “timidez” e o desanimador contexto cultural e profissional da fotografia no período6 inviabilizaram a sua profissionalização. Tornar-se-ia nos anos seguintes um “fotógrafo de domingo”7, dedicado à fotografia privada e familiar.

O regresso consistente à atividade fotográfica deu-se a partir de 1982, com a exposição “Fotografias - 1956/1982”, na Galeria Ether Vale tudo menos tirar olhos, local onde António Sena pretendeu recuperar e apresentar a “geração esquecida”8 de fotógrafos portugueses dos anos de 19509, alheios ao salonismo em voga naquela época, e integrá-los definitivamente no património fotográfico português.

Foi, então, o início de uma segunda vida na obra fotográfica de Gérard Castello-Lopes, na qual o autor revisitou as primeiras fotografias e lhes fez novas leituras. Nas suas palavras, a natureza do seu olhar seria a mesma; o que mudava era o seu objeto10.

Começou a refletir sobre a fotografia (a escala, a cor, as ilusões do olhar) e a fotografar o que lhe parecia registável no mundo das coisas e da natureza11. Tinha a intenção última de transmitir, através das imagens, a “exaltante charada das aparências”12, procurando ir ao encontro do destino da fotografia que, no seu entender, mais não é senão “desencadear uma emoção estética, um prazer da evocação, um misterioso reencontro com os arquétipos”13.

Para Gérard Castello-Lopes, a atividade do fotógrafo resume-se a uma “cascata de opções”14, que vão desde a escolha da câmara, da película e objetiva, até à distância focal, ao enquadramento e à revelação. A fotografia é, como afirma no excerto em epígrafe, uma “escadaria de escolhas”: um conjunto de decisões que devem ser tomadas criticamente pelo fotógrafo. Ao selecionar as imagens para a exposição David, o autor surpreendeu-se com um degrau suplementar na sua escadaria: o da afetividade.

Bruno Ferro e Mariana Caldas de Almeida
Março 2026


Castello-Lopes, G. (2001),texto introdutório.
A par com o seu trabalho fotográfico, Gérard Castello-Lopes licenciou-se em Economia, foi profissional de cinema, gestor, crítico e fundador do Centro Português de Cinema. Membro do Corpo Diplomático no Conselho da Europa, viveu entre Lisboa, Estrasburgo e Paris, onde fixou residência. A partir da década de 1980 expôs e participou em diferentes exposições e publicações fotográficas, nacionais e internacionais, e tem a sua vasta obra representada em diversas coleções públicas e privadas.
Esta é a única fotografia de Gérard Castello-Lopes existente no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, onde se encontra catalogada com o código de referência PT/AMLSB/EXP/000070. Trata-se de uma prova a preto e branco que integrou a exposição David em 2001, tendo sido posteriormente oferecida pelo autor ao Arquivo Municipal.
Castello-Lopes, G. (2001), texto introdutório.
5 Fundação Calouste Gulbenkian, Gérard Castello-Lopes, Centro de Arte Moderna, consultado em 19 de fevereiro de 2026, https://gulbenkian.pt/cam/artist/gerard-castello-lopes/
6 Barreto, A. (1998),p.9
7 Castello-Lopes, G. (1984), p. 10
8 Castello-Lopes, G., prefácio a Carlos Afonso Dias (1989), citado em Sena (1997), p.292-293.
9 Entre outros fotógrafos desta geração, destacam-se Victor Palla (1922-2006) e Manuel Costa Martins (1922-1996), António Sena da Silva (1926-2001), Carlos Calvet (1928-2014) e Carlos Afonso Dias (1930-2010).
10 Castello-Lopes no documentário Olhar/Ver: Gérard, Fotógrafo, Parte 2, (Lopes, 1998)
11 Segundo Castello-Lopes, dá-se uma aproximação à obra de fotógrafos como Edward Weston (1886-1958), Minor White (1908-1976), Alfred Stieglitz (1864-1946), Aaron Siskind (1903-1991) e Thomas Joshua Cooper. (1946). Ver Reflections (1996), p.16.
12 Castello-Lopes G. (2004), p.153.
13 Castello-Lopes, G (2004), p. 160. Em 1989, na Galeria Ether, expõe «Uma Fotografia» - uma única imagem, ampliada em grande formato, onde evidencia o paradoxo do visível, sustentado aqui de forma exemplar pelo peso e, simultaneamente, pela leveza de um enorme rochedo suspenso entre as ondas do mar, sendo o resultado de uma aturada pesquisa sobre as dimensões possíveis de uma ampliação fotográfica.
14 Castello- Lopes G. (2004), p.166.


Bibliografia

Barreto, A., Castello-Lopes, G. (1998). Lisboa de outras eras 1956-1958 = Lisbonne d'un autre temps. Câmara Municipal de Lisboa, Pelouro da Cultura.
Castello-Lopes, G. (1984). Perto da vista. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
Castello-Lopes, G. (1996). Reflections = Reflexos. Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.
Castello-Lopes, G. (2001). David (de) Gérard Castello-Lopes (I. M. Viegas & L. C. Dias, Coords.). Câmara Municipal de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico.
Castello-Lopes, G. (2004). Reflexões sobre fotografia: eu, a fotografia, os outros. Assírio & Alvim.
Castello-Lopes, G.; Mexia, P. (2025). Ph.14 Gérard Castello-Lopes. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
Lopes, F. (Realizador). (1998). Olhar/Ver: Gérard, fotógrafo [Filme; vídeo]. RTP.
Marques, S. L., Carneiro, J e Almeida, V. (Editores) (2009), Ag, Prata – Reflexões Periódicas sobre fotografia.S. L. M., J. C., V. A.