Detalhe
São Francisco Xavier
O Arquivo Municipal de Lisboa possui no seu acervo, entre milhares de fotografias, uma alusiva a São Francisco Xavier ensinando a Doutrina Cristã no Malabar.
A imagem, à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico1, a preto e branco e com uma dimensão de 13x18 cm, foi produzida a partir de uma pintura, de 1619, de André Reinoso (1590-1650), o primeiro pintor do Barroco em Portugal, e faz parte de um conjunto de vinte pinturas a óleo dedicadas à ação missionária de São Francisco Xavier e executadas para a Companhia de Jesus2. O original, localizado na sacristia da Igreja de São Roque, representa São Francisco Xavier na sua ação missionária, evidenciando o seu papel na catequização e no ensino da doutrina cristã junto de diferentes comunidades. Este tipo de representação, frequente na época, contribuiu para a construção da memória deste santo enquanto missionário.
O autor da fotografia foi José Artur Leitão Bárcia (1873-1945), fotógrafo, nascido em Portugal, que se dedicou a fotografar Lisboa, individualidades da vida política, social e artística, bem como pinturas, desenhos, gravuras, documentos manuscritos e impressos.
Em Lisboa, São Francisco Xavier é recordado de diversas formas, desde a sua presença artística na Igreja de São Roque até à sua evocação na toponímia e em instituições, como o Hospital de São Francisco Xavier, situado na zona do Restelo e inaugurado a 24 de abril de 1987. No contexto da Igreja de São Roque, destaca-se, entre as capelas que a compõem, a Capela de São Francisco Xavier, fundada em 1623 por Luiz Rois de Elvas. Encontra-se igualmente associado ao Colégio de São Francisco Xavier, escola católica da Congregação das Irmãs de São José de Cluny, cuja matriz pedagógica, assente no Evangelho, remonta à fundação da congregação em França, em 1807, por Ana Maria Javouhey3.
Na toponímia, destaca-se a Praça de São Francisco Xavier, em Belém, inaugurada a 4 de julho de 2005, no local onde viria a ser erguida a Igreja Paroquial de São Francisco Xavier, inaugurada em 2011.
Francisco Xavier nasceu a 7 de abril de 1506, no Castelo de Xavier, em Navarra, norte da Espanha, numa família nobre. O seu pai era Juan de Jassu, presidente do Conselho Real de Navarra e a sua mãe Maria de Aspilcueta4. Em 1525 viajou para Paris onde fez os estudos universitários e, em 1530, tornou-se Magister Artium5. Embora preparado para a carreira académica, acabou por dar um passo importante na sua vida de fé, no Colégio de Santa Bárbara, onde viviam e estudavam jovens ligados à corte portuguesa, protegidos do Rei de Portugal, D. João III.
Conheceu Pedro Fabro e Inácio de Loyola, e formaram-se os três em Teologia. De início, o seu relacionamento, sobretudo com Inácio de Loyola, não foi fácil, tanto que o próprio definiu Francisco como "o pedaço de massa mais difícil que amassou"6. Em agosto de 1534, na Capela de Montmartre e com Loyola, fizeram os votos de pobreza e de castidade. Pouco tempo depois, em 1539, viriam ambos a participar na fundação de uma nova Ordem Religiosa, a Companhia de Jesus.
No dia 7 de abril de 1541, Francisco Xavier partiu para as Índias, a pedido de Paulo III7, que pretendia a evangelização dos povos dessas regiões, na época sob domínio português. A viagem de Lisboa a Goa durou cerca de treze meses, tendo de lidar com escassez de comida a bordo, calor demasiado intenso e tempestades. Quando chegou a Goa, em maio de 1542, Francisco Xavier escolheu como casa o hospital da cidade. Desde essa altura dedicou-se à assistência aos doentes, prisioneiros, escravos e os menores abandonados.
Para as crianças, Francisco Xavier inventou um novo método de ensino do Catecismo. Reunia-as nas ruas tocando um sininho; depois, ao juntá-las na igreja, traduzia os princípios da Doutrina Católica em versos e cantava com elas, ajudando-as na aprendizagem. Também se dedicou, durante dois anos, à evangelização dos pescadores de pérolas, residentes no sul das Índias.
Entre 1545 e 1547, Francisco Xavier chegou a Malaca, arquipélago das Molucas, e às Ilhas do Moro tendo conhecimento de que ali existiam cristãos. Também nesta região utilizou o mesmo método de evangelização, primeiro junto das crianças e depois do resto da população.
Nesse ano de 1547 encontrou um fugitivo japonês, chamado Anjirō, ansioso por se converter ao Cristianismo. Este encontro suscitou-lhe o desejo de viajar até ao Japão, para levar o Evangelho à “terra do Sol Nascente”. Chegou em 1549, acompanhado por mais dois jesuítas e alguns cristãos japoneses, e embora soubesse da pena de morte vigente para quem administrasse o sacramento do Batismo, conseguiu fundar um grupo de muitos fiéis. Anjirō permaneceu com Francisco enquanto tradutor e guia, tendo adotado o nome de batismo de Paulo de Santa Fé8.
Em 1552, Francisco Xavier deixava Goa e, via Malaca, chegava à China a bordo da nau Santa Cruz, tendo conseguido alcançar a ilha de Shangchuan onde tentou embarcar para Cantão.
Atacado por febre e devido ao cansaço, frio e falta de condições, veio a falecer na madrugada do dia 3 de dezembro de 1552, com 46 anos. Sabe-se da sua morte através de relatos do seu companheiro de viagem, Paulo de Santa Fé.
Dois anos depois, tendo seu corpo sido preservado em sal, foi trasladado para a igreja do Bom Jesus de Goa. Uma das suas relíquias, o antebraço direito, mantém-se conservado na Igreja de Jesus, em Roma, desde 1614. Em Lisboa, encontra-se um relicário com fragmentos menores do seu corpo na Igreja de São Roque. Existem também fotografias no Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico de uma cerimónia realizada no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, da autoria de Armando Maia Serôdio9, onde é fotografada a entrada das relíquias de São Francisco Xavier, no entanto, desconhece-se em que circunstâncias decorreu essa cerimónia.
São Francisco Xavier foi beatificado por Paulo V, em 1619, e canonizado por Gregório XV, em 1622, tendo sido proclamado Padroeiro do Oriente, em 1748, da Obra de Propagação da Fé, em 1904, e de todas as Missões, em 1927.
Em 2006, em Lisboa, foi comemorado o “V Centenário do Nascimento de São Francisco Xavier”, com uma Missa solene presidida pelo Cardeal-Patriarca na igreja paroquial de São Francisco Xavier, no Restelo. Das diversas iniciativas realizadas no âmbito deste centenário, destaca-se a exposição "São Francisco Xavier – a sua Vida e o seu Tempo", realizada na Cordoaria Nacional. A RTP também dedicou um episódio do programa "Entre Nós" à exposição, tendo o historiador José Hermano Saraiva apresentado um programa especial, exibido neste canal televisivo10. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa lançou uma coletânea bilíngue dedicada à vida e à lenda de São Francisco Xavier, na mesma data comemorativa11.
São Francisco Xavier, cofundador da Companhia de Jesus, foi um dos mais importantes missionários da Igreja Católica e uma figura-chave na evangelização da Índia, do Japão e de outras regiões do sudeste asiático, tendo a sua imagem sido amplamente difundida. A projeção do seu percurso missionário, articulada com a presença marcante da Companhia de Jesus em Portugal, contribuiu para a consolidação deste legado, tornando compreensível a sua expressiva representação na cidade de Lisboa, onde continua a ser evocado na toponímia, nas instituições e no património religioso.
Ana Cristina Campos
Maio 2026
1 Consultar, para mais informações, a base de dados do Arquivo Municipal de Lisboa em X-arqWeb
2 Mais informações disponíveis na página web do Museu de São Roque, em Pregação de São Francisco Xavier em Goa - Museu de São Roque
3 Mais informação em https://colegiosfxavier.com/historia-do-colegio/
4 S. Francisco Xavier, presbítero jesuíta, evangelizador das Índias, padroeiro das Missões (s.d.). Vatican News. https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/12/03/s--francisco-xavier--presbitero-jesuita--evangelizador-das-india.html
5 Tradução do latim, Mestre em Artes.
6 S. Francisco Xavier, presbítero jesuíta, evangelizador das Índias, padroeiro das Missões (s.d.). Vatican News. https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/12/03/s--francisco-xavier--presbitero-jesuita--evangelizador-das-india.html
7 Ver também Centro Nacional de Cultura. (2023). Abecedário da Cultura da Língua Portuguesa: X. Xavier (S. Francisco) e “Peregrinação”. CNC. https://www.cnc.pt/x-xavier-s-francisco-e-peregrinacao/
8 Leão, J. H. C. (2020). O jesuíta e o samurai: A relação entre Francisco Xavier e Paulo de Santa Fé na missão japonesa no século 16. PRAJNA, Revista de Culturas Orientais, 01(1), 124-148. https://revistaprajna.com/ojs3/index.php/prajna/article/view/27/4
9 Armando Maia Serôdio, fotógrafo, nasceu em Tuy no ano de 1907 e iniciou-se no mundo da fotografia como repórter independente.
10 Ver https://arquivos.rtp.pt/conteudos/exposicao-na-cordoaria/
11 Henriques, A. M. M. (2006). São Francisco Xavier: Vida e lenda. Museu de São Roque.
Bibliografia
Centro Nacional de Cultura. (2023). Abecedário da Cultura da Língua Portuguesa: X. Xavier (S. Francisco) e “Peregrinação”. CNC. https://www.cnc.pt/x-xavier-s-francisco-e-peregrinacao/
Henriques, A. M. M. (2006). São Francisco Xavier: Vida e lenda. Museu de São Roque.
Leão, J. H. C. (2020). O jesuíta e o samurai: A relação entre Francisco Xavier e Paulo de Santa Fé na missão japonesa no século16. PRAJNA, Revista de Culturas Orientais, 01(1), 24-148. https://revistaprajna.com/ojs3/index.php/prajna/article/view/27/4
Pereira, T. S. (2005). Praça S. Francisco Xavier. Câmara Municipal de Lisboa, Comissão Municipal de Toponímia.
S. Francisco Xavier, presbítero jesuíta, evangelizador das Índias, padroeiro das Missões (s.d.). Vatican News. https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/12/03/s--francisco-xavier--presbitero-jesuita--evangelizador-das-india.html




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