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Detalhe

O edifício Franjinhas

Um símbolo de Liberdade

 

Edifício Braamcamp ou Franjinhas, prémio Valmor de 1971, 1969

registo no catálogo

A obra para mim mais emblemática [da cidade de Lisboa] é o edifício “Franjinhas”. É de uma execução primorosa e a originalidade da forma como filtra o sol é […] uma coisa muito difícil de concretizar.

Eduardo Souto Moura

O edifício Franjinhas, situado no gaveto da Rua Braamcamp, n.º 9, com a Rua Castilho, n.º 40, em Lisboa, é o destaque deste mês. A fotografia selecionada reproduz a sua fachada, testemunho da arquitetura moderna na capital portuguesa e da polémica que a sua construção suscitou.
 
Projetado pelos arquitetos Nuno Teotónio Pereira (1922-2016) e João Braula Reis (1927-1989), este imóvel representa uma inovadora intervenção arquitetónica na cidade, concebida em open space1. A sua construção foi promovida por Nuno Franco de Oliveira Falcão, no terreno da antiga casa da família Franco Falcão, num processo iniciado entre 1965 e 1969, e que decorreu entre 1969 e 1971, tendo o edifício sido inaugurado em 1972. No interior, integra elementos do artista visual Eduardo Nery2 (1938–2013), nomeadamente labirintos em betão, murais geométricos e o pavimento da cave executado em calçada de mosaico preto e branco.

Logo após a sua conclusão, o edifício esteve no centro de uma das mais marcantes polémicas da arquitetura contemporânea em Portugal, envolvendo tanto a opinião pública como a comunidade de arquitetos. O debate deu origem a dezenas de artigos na imprensa, numa controvérsia que ficou conhecida como a questão dos “mamarrachos”, refletindo a resistência e o confronto de perspetivas face às linguagens arquitetónicas modernas.

Em 1971, o edifício recebeu o Prémio Valmor, distinção que, apesar de oficial, também suscitou debate devido ao carácter inovador da solução arquitetónica, então percecionada como disruptiva no contexto urbano da cidade. Contudo, como o arquiteto Nuno Teotónio Pereira estava preso no forte de Caxias, o prémio só seria formalmente entregue após o 25 de Abril de 1974. Anos mais tarde, em 21 de junho de 2011, o Ministério da Cultura classificou o edifício como Monumento de Interesse Público, reconhecendo o seu interesse arquitetónico e urbano, assim como a sua relevância no panorama da arquitetura moderna em Lisboa.

Foi deste edifício que, no dia 25 de abril de 1974, saiu Celeste Martins com um grande ramo de cravos vermelhos em direção ao centro dos acontecimentos revolucionários. O restaurante aí existente, onde trabalhava, inaugurado um ano antes, preparava-se para assinalar o seu primeiro aniversário, tendo por isso sido encomendados numerosos cravos vermelhos e brancos. Face ao desenrolar dos acontecimentos, e uma vez que o restaurante se manteria encerrado, Celeste decidiu distribuir essas flores pelos soldados que se encontravam nas imediações. Este gesto espontâneo viria a associar simbolicamente os cravos ao movimento militar de 25 de Abril de 1974, fixando-os como um dos seus símbolos mais duradouros.

O Franjinhas é um edifício de escritórios com uma galeria comercial de lojas abertas para a rua. A designação pela qual ficou desde logo conhecido, Franjinhas, deve-se à solução encontrada pelos arquitetos para a proteção solar das janelas, na zona intermédia da fachada criando um jogo de placas de betão que, com dimensões variáveis, protegem os envidraçados dos pisos e permitem a distribuição de luz no seu interior, a partir do qual são visíveis fragmentos da cidade.

Estas palas, para além do resultado estético e identitário do edifício, contribuíram para evidenciar as potencialidades expressivas e construtivas do betão pré-fabricado. Mas, também, ao impedirem a incidência direta da radiação solar ao nível das mesas de trabalho, dispensando a utilização de estores que comprometeriam a entrada de luz natural, permitiram solucionar o problema do conforto visual, assegurando boas condições de luminosidade para os postos de trabalho aí existentes. As palas superiores contribuem para a reflexão da luz natural, projetando-a para o teto e, daí, para o interior das salas, permitindo uma iluminação homogénea e constante desde o plano envidraçado.

O modo como o piso térreo se relaciona com a rua, funcionando em continuidade desta através das galerias comerciais distribuídas por dois pisos e das escadas, afirma o carácter inovador da solução adotada. O corpo do edifício desenvolve-se em seis pisos, sendo o coroamento constituído por um restaurante e pelo espaço destinado à administração. Este processo criativo justifica plenamente a designação de “arquitetura feita de dentro para fora”, em primeiro lugar “para ser vivida” e “logo depois para ser vista”.3

O edifício Franjinhas encontra-se entre aqueles que marcaram e transformaram Lisboa dos anos 1960/1970. Tal como salientado na sua classificação como Monumento de Interesse Público4, é uma edificação “exemplar no âmbito da arquitectura portuguesa do século XX, porque não repetível”, articulando “critérios como autenticidade, originalidade, raridade, singularidade e exemplaridade, que se revelam expressivamente no modo como foi apropriado pelos cidadãos e na relevância simbólica que adquiriram como lugar de memória arquitectónica da forma de fazer cidade.”

Sofia Moura-Carvalho
Janeiro 2026


Conceito inglês que descreve um espaço relativamente grande e aberto, no qual as paredes quase não existem e os espaços fechados são raros. Um open space maximiza o espaço aberto e é suportado por vigas estruturais de grande dimensão.
2 Pintor português que estudou arquitetura e cuja obra eclética e inovadora marcou a arte portuguesa contemporânea. Fez um percurso artístico rico e diversificado que abrangeu várias técnicas e estilos (desde a tapeçaria, o vitral, a fotografia e à azulejaria). Na pintura explorou o abstracionismo, tendo aderido ao movimento internacional da Op Art, caracterizado pelo uso sistemático de degradés e pelo ilusionismo ótico. Foi fundador e professor da escola Ar.Co tendo desempenhado um papel fundamental na educação artística. As suas obras podem ser encontradas em coleções públicas e privadas. A calçada portuguesa da praça do Município em Lisboa é um exemplo.
3 https://nunoteotoniopereira.pt/biografia/franjinhas/

4 Portaria n.º 587/2011


Bibliografia

Becker, A., Tostões, A., & Wang, W. (1997). Arquitectura do século XX: Portugal. Deutsches Architektur-Museum.
Lobo, R. L. (2022). No Centenário de Nuno Teotónio Pereira, é tempo de o descentralizar.TimeOut Notícias
Lopes, C. (2020). Edifício “Franjinhas”: Um desafio à paciência, determinação e persistência. TA Notícias. 
Milheiro, A.V. (2016). - Nuno Teotónio Pereira (1922-2016): A morte de um militante arquiteto. [Em linha]. Público, Arquitetura, 2016-01-20. [Consult. 2024-10-29]. 
Rádio Renascença. (2016a).Teotónio Pereira: “O melhor arquitecto da sua geração” era um “homem múltiplo”. RR Renascença.
Rádio Renascença. (2016b). Do “Franjinhas” ao Coração de Jesus: Seis obras emblemáticas de Nuno Teotónio Pereira. RR Renascença. 
Tostões, A. (Coord.). (2004). Arquitectura e cidadania: Atelier Nuno Teotónio Pereira. Quimera.